sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A vida como cobaia

Até aqui já foi possível perceber que o uso de pessoas como sujeitos de pesquisa é uma atividade que demanda bastantes cuidados éticos. Uma série de regras devem ser seguidas, e entre elas, a principal talvez, a pessoa deve autorizar o estudo. Quando o voluntário está incapacitado de fazer essa escolha, seus responsáveis a fazem em seu lugar. Em alguns casos esse “voluntariado” dura por boa parte, ou ainda por toda a vida. É o que aconteceu com dois homens, que de um momento para o outro deixaram de ser simples cidadãos e tornaram-se cobaias humanas, David Reimer e Henry Gustav Molaison (paciente H.M.).

David Reimer nasceu em agosto de 1965. Ele tinha um irmão gêmeo e os dois eram, aparentemente saudáveis. Aos 6 meses de idade os médicos recomendaram uma cirurgia de circuncisão, a qual foi mal sucedida para um dos gêmeos: Bruce Reimer foi mutilado, ficando sem seu pênis. Os pais ficaram perdidos, sem saber o que fazer com o filho, até que encontraram o psicólogo Dr. John Money, da Jonhs Hopkins University of Baltimore. Esse psicólogo defendia a ideia de que as pessoas nasciam neutras em relação a sua sexualidade, e que comportar-se como homem ou como mulher era algo que dependia exclusivamente da criação, ou seja, o meio era o único fator que importava. O Dr. Money indicou que Bruce fizesse uma cirurgia de mudança de sexo. Dessa forma sua genitália foi tirada por completo e Bruce tornou-se Brenda e foi criado como tal.

Por recomendações do psicólogo os pais não deveriam contar a Bruce sobre sua verdadeira identidade. Ele deveria ser tratado a partir daquele momento como Brenda. E foi isso que seus pais fizeram. Janet Reimer, sua mãe, se esforçou nessa tarefa, vestindo a “menina” com vestidos e saias e ensinando como passar maquiagem, coisas extremamente comuns para qualquer garota. Levando-se em consideração os relatos de Money nos anos 70, as crianças eram felizes e desempenhavam muito bem os papéis de menino e menina, que lhes foram designados. Brian crescia como um menino forte e levado e Brenda era uma garotinha doce. Os dois irmãos foram acompanhados de perto pelo psicólogo, que por meio desse experimento queria provar sua tese de que as pessoas não nascem com sua identidade de gênero formada.

Tudo parecia ir muito bem, no entanto, a transformação não estava acontecendo da forma que era esperada. Bruce não gostava de brincar com as outras garotas, tampouco se comportava como uma, sendo que frequentemente envolvia-se em brigas na escola porque constantemente era alvo de brincadeiras e apelidos por parte dos outros alunos da escola. Ficava claro que os resultados positivos só existiam para o DR. Money que visava à fama no meio científico.

Quando chegou à puberdade, Brenda começou a passar por mudanças corporais típicas de um garoto. Nessa época, Money sugeriu que uma vagina fosse feita cirurgicamente, completando a mudança física de Bruce para Brenda. Mas, Bruce rebelou-se e disse que caso fosse a mais uma visita ao psicólogo, cometeria suicídio. Foi aí que seus pais resolveram lhe contar toda a verdade. Após um período de muita revolta, com tentativas de suicídio inclusive, Bruce resolveu que viveria como um homem normal a partir daquele momento. Ele reassumiu sua identidade masculina, passando a se chamar David, passou por cirurgias de reconstrução peniana, tratamento hormonal a base de testosterona e tornou-se fisicamente homem outra vez. Em 1997 casou-se e tornou-se padrasto de 3 crianças.

No ano 2000 David veio a público e contou para o escritor americano John Calapinto sua história. O livro “As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Girl” foi publicado e toda essa história tornou-se conhecida pelas pessoas. Essa foi uma das formas que David encontrou de evitar que outras crianças passassem pelo mesmo drama que ele passou em sua vida. Também nessa época dois estudos publicados pela Johns Hopkins Children’s Center concluíram que a exposição pré-natal dos fetos a hormônios pré-determina o sexo da criança, ou seja, questões hormonais, e não ambientais, são primordiais (no entanto, não são as únicas) para que uma criança seja um garoto ou uma garota.

O fato é que apesar dos danos físicos terem sido aparentemente resolvidos por meio do tratamento médico, os danos psicológicos de Reimer nunca foram completamente compensados. Prova disso é que mesmo após o seu tratamento, suas crises depressivas eram constantes. A depressão, o divórcio e o desemprego foram fatores que, muito provavelmente, contribuíram para o suicídio de Reimer, em 2004.

O outro caso de uma pessoa que tornou-se cobaia do dia pra noite foi do famoso paciente H.M., Henry Gustav Molaison. Esse homem perdeu totalmente a capacidade de guardar novas memórias, ficando para sempre preso ao passado, em consequência de uma cirurgia experimental. Mas, os estudos envolvendo H.M., permitiram que a ciência descobrisse boa parte do que sabe a respeito da memória.

H.M. era uma criança normal até que aos 9 anos sofreu uma queda enquanto andava de bicicleta. O forte traumatismo craniano que sofrera deixou como sequela as constantes crises epilépticas, intratáveis com o uso das medicações convencionais. Essas crises pioraram ao longo de tempo, até que 1953 ele foi encaminhado para o neurocirurgião William Beecher Scoville.

Após alguns exames Scoville descobriu que a origem das epilepsias de H.M. era no lobo temporal medial do telencéfalo e sugeriu que esses lobos fossem retirados bilateralmente em uma cirurgia. No dia 1 de setembro de 1953 a cirurgia foi realizada. Na cirurgia foram retirados seus hipocampos, giros parahipocampal, as amígdalas e o córtex entorrinal.

Depois da cirurgia o paciente H.M., que ficou curado da epilepsia, passou a sofrer de graves problemas de memória. Ele lembrava-se de tudo que ocorrera em sua vida até seis meses antes da cirurgia, no entanto ficou incapacitado de guardar novas informações como memória de longa duração.

A partir desse fato, os cientistas ficaram curiosos a respeito dos mecanismos de armazenamento de informações no nosso sistema nervoso e resolveram iniciar estudos com o paciente H.M. Esses estudos foram importantes no que diz respeito à localização exata de áreas particulares do cérebro que estão ligadas aos processos específicos da formação da memória.

Dessa forma iniciou-se uma série de muitos estudos com o paciente H.M., mais de 100 cientistas o estudaram por mais de 55 anos. Tinha-se então um laboratório vivo, no qual era possível realizar experimentos para testar a formação de memórias. Umas das pessoas que mais realizou testes no paciente H.M, foi a neurocientista dra. Brenda Milner, que mesmo após anos de acompanhamento precisava se apresentar a cada nova visita ao paciente, pois este já havia esquecido de quem era a neurocientista.

H.M. teve de uma hora para outra a sua vida transformada. Antes da cirurgia era uma pessoa, como qualquer outra, independente, capaz de tomar suas próprias decisões. Após a cirurgia, como não conseguia mais formar novas memórias passou a ser extremamente dependente das pessoas, uma vez que nem ao menos conseguiria lembrar seu endereço, caso mudasse de casa. Assim a vida de H.M. restringia-se quase totalmente a sua função de cobaia em experimentos neurocientíficos.

Certa vez o ganhador do prêmio Nobel de Medicina, Eric Kandel, falou a respeito da importância dos estudos realizados com o paciente H.M.: “permanece como um dos maiores marcos da história da neurociência moderna, e proporcionou a base do conhecimento para tudo que veio depois: o estudo da memória humana e seus distúrbios”.

Mesmo após a sua morte, H.M. não deixou de ser cobaia. Assim que morreu, em 2008, iniciou-se, na Universidade de San Diego, na Califórnia, a análise do seu encéfalo, com o consentimento do próprio H.M. Durante um processo que durou ao todo 53 horas, mais de 2500 amostras histológicas foram obtidas para que se fossem feitas análises mais minuciosas a respeito da “anatomia da memória”.

Novamente chegamos ao dilema do uso de cobaias humanas na ciência: qual a relação custo/benefício do uso de uma vida humana em um estudo científico? No caso Reimer em específico, a vida de um garoto foi completamente transformada. Bruce, Brenda, David..., a pessoa perdeu completamente a identidade que tinha ao nascer, e penso que muito mais que uma mutilação física, foi feita uma mutilação psicológica, pois David jamais conseguiu ser uma pessoa mentalmente equilibrada outra vez. Mas, se formos observar os aspectos positivos desse estudo (e acreditem, eles existem, e o próprio Reimer decidiu expor para todos quando aceitou que Calapinto escrevesse um livro sobre sua história), ele serviu para demonstrar que muito além do fator ambiental e da criação que a pessoa recebe, a identidade de gênero é importantemente influenciada por fatores genéticos e hormonais, sendo impossível apenas pela mudança cirúrgica da genitália e pela administração de hormônios femininos transformar Bruce em Brenda (homem em mulher). No caso do paciente H.M, devemos boa parte do conhecimento que temos a respeito da memória aos estudos realizados com esse paciente, que por mais de cinco décadas foi cobaia em experimentos neurocientíficos. Se “colocarmos na balança” veremos que a ciência deu um passo à frente, mas que a vida de uma pessoa (como cidadão independente) teve que ser inteiramente comprometida para que esse avanço fosse obtido. Cabe a todos a reflexão de ser válido ou não o uso de uma vida inteira para se conseguir o tão almejado conhecimento.

*** Caso você tenha se interessado por essas histórias, abaixo deixarei os links de alguns vídeos de um documentário que conta a história de David Reimer (os vídeos estão com o áudio em inglês) e de um vídeo que mostrar a forma como o cérebro do paciente H.M. foi preparado para os estudos histológicos:


video

Referência bibliográfica:

David Reimer.< http://en.wikipedia.org/wiki/David_Reimer>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

David Reimer The boy who lived as a girl. <http://www.cbc.ca/news/background/reimer>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

The Brain Observatory. <http://thebrainobservatory.ucsd.edu/hm_live.php>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

LIMA, Renata. Explorando o cérebro do paciente H.M. <http://blog.sbnec.org.br/2009/12/explorando-o-cerebro-do-paciente-h-m/>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

HM (patient).< http://en.wikipedia.org/wiki/HM_(patient)>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

PEREIRA, Ana Carolina G.(2009). O paciente H.M. Revista Piauí. <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-28/despedida/o-paciente-hm/>. Acessado em 21 de janeiro de 2011.

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